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De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

Quando nos transformamos numa calculadora versão humana

Dezembro 14, 2016

Filippa

Sabem o que é mesmo mesmo mesmo engraçado? O cliente chega com o cesto a abarrotar de artigos, despeja tudo no tapete e no fim diz 'olhe veja lá se dá para tudo porque só tenho x€'. Tu olhas muito cautelosamente para as coisas, fazes as contas de cabeça e dizes uma de duas frases 'Claro que chega, chega e sobra.' ou então 'Provavelmente não vai chegar, eu vou passando as coisas e depois logo vemos.'

É claro que por vezes as pessoas pecam por baixo, ou seja, o que levam é muito inferior ao valor máximo que têm para gastar, mas há outras vezes que tu olhas para a pessoa e pensas 'isto até tem produtos baratos mas não tanto assim amiga'. Levam tudo de marca e em grandes quantidades e ainda pedem milagres? O que mais me admira são as pessoas nem sequer olharem para os preços, vão pondo as coisas nos cestos/carrinhos e depois quando chegam às caixas é que se lembram que afinal só levaram x € e que afinal é capaz de não chegar para tudo. Fico parva com essas pessoas, depois passam o cartão de cliente e quando não faz nenhum desconto ainda dizem 'para que serve o cartão se não dá desconto em nada?'. Uma pessoa lá tem de dizer que há artigos que têm desconto com o cartão de maneira assinalável na loja ou que então tem de usar os cupões que saem e lhes são entregues. Claro que a justificação é completamente ignorada e nós estamos ali a falar para o boneco porque se não dá desconto imediato o cartão não serve para absolutamente nada.

Normalmente isto acontece com as domésticas que lá vão às compras para as patroas, são tão engraçadas 'oh menina veja lá se estes 20€ que tenho chegam, ela (a patroa) deu-me isto e uma lista gigante de coisas para levar, deve pensar que o resto eu levo devido aos meus lindos olhos.'. Estas pessoas são sempre tão simpáticas que é impossivel ficar chateada, pensar uma pessoa pensa, dizer até é capaz de dizer alguma coisa mas ficar chateada não.

Sabem que vos digo? Prestem atenção aos preços e ao que está realmente em promoção, de nada adianta chegar-se à caixa e perguntar à operadora se o dinheiro chega para aquilo tudo. Nós trabalhamos ali mas não sabemos o preço de tudo, principalmente quando há muitos preços que mudam de semana para semana. Adorava ter uma calculadora na minha mente e assim prestar um serviço adequado a este tipo de clientes mas a verdade é que a evolução humana ainda não nos permite instalar aplicações no nosso cérebro e assim sermos completamente funcionais como o nosso android ou iphone. 

Vamos todos cantar?

Dezembro 11, 2016

Filippa

Eu sou aquela pessoa que adora tudo o que é filme de animação, sempre que sai algum em cinema digo logo 'tenho de ir ver' sem me importar minimamente que quando entro na sala de cinema sou das pessoa mais velhas. Costumo ir algumas vezes ao cinema e até iria mais se não acabasse por ficar caro, mesmo com o cartão da nos a pobreza é real.

Quando vi o trailer de "Cantar" disse logo 'tenho de ir ver' mas não foi daquelas coisas que muitas vezes digo e não faço, desta vez foi mais dito e feito. No feriado, dia 8 quando o filme estreou, meti-me a caminho e meti os pés numa sala de cinema. O trailer captou-me a atenção, achei logo imensa piada a algumas personagens e o facto de ser com teatro e música arrebatou-me logo.

O filme é simplesmente maravilhoso, para isso contribuiu as sempre ótimas dobragens portuguesas, as personagens são amorosas mas acima de tudo acho que é um filme incrivel para a criançada. 

Em termos de história não há muito para saber, visto ser para uma faixa etária muito específica, o enredo não é muito complicado. Tens um teatro que outrora foi grande mas agora basicamente está na penúria, tens um dono que quer reinventar o seu negócio e para isso organiza um concurso de talentos e depois aparecem todo o tipo de talentos. A mãe de casa, a envergonhada, o rapaz que canta este mundo e o outro mas tem medo de dizer ao pai, um ratinho que não tem problemas em mostrar que é o melhor etc etc. Mesmo sendo um filme muito simples, a história consegue englobar muita diversidade de personalidades e esse é um dos pontos positivos, as crianças de uma maneira muito infantil conseguem ver na tela como é possivel tantas "pessoas" diferentes estarem unidas por algo (neste caso a música, o talento), e vamos ser sinceros, este mundo está cada vez pior, há cada vez menos tolerância para aquilo que é diferente e o contrário ser apresentado de uma maneira tão simples no filme é de aplaudir. Depois tens toda uma aura de 'se tu queres pode acontecer' em toda a película, desde o dono do teatro até à elefante que é timida e não consegue cantar em palco. Tantas e tantas crianças que não são devidamente incentivadas, que se deixam afetar pela suas limitações e não mostram o melhor de si... Não é de louvar um filme que incentiva o contrário?

É um filme extremamente bem conseguido, como referi anteriormente as dobragens portuguesas são muitos boas, nestes filmes vejo sempre a versão portuguesa porque acho que nós enquanto espetadores não ficamos mesmo nada a perder. Para quem tem filhos, sobrinhos, afilhados, netos etc levem a vossa criançada a ver este filme. Tenho a certeza que eles vão adorar!    

A formação não nos prepara para isto.

Dezembro 09, 2016

Filippa

Adoro trabalhar com o público. É tão dinâmico, por muito que o meu trabalho consista sempre no mesmo todos os dias são diferentes porque há sempre algo que acontece que não aconteceu no dia anterior e muito provavelmente não vai acontecer no dia a seguir.

Já aconteceu a dez minutos da loja fechar aparecer um homem perdido de amores pelo álcool que deixou cair uma grade inteira de cervejas, muitas vezes o camião da mercadoria aparece quando o dia já virou noite e nós só queremos ir para casa ou então a sempre famosa "caça ao ladrão" em que nuns dias são os mais bem vistos que entram na loja e noutros são logo apanhados mal metem o pé dentro da loja.

Há muitos clientes que lá vão todos os dias, sendo um supermercado de rua, deixam o seu cãozinho à porta e vão fazer as compras rápidas para não o deixar muito tempo à espera. 'Dá aí um olhinho por ele?' 'Dou sim, vá lá comprar as suas coisas', "Posso entrar com ele? Vou só comprar pão.", "a entrada não é permitida a animais, deixe-se estar que eu vou buscar, qual é o pão que quer?". 
Assim como vamos conhecendo os donos também conhecemos os bichos e afeiçoamo-nos a eles um bocado mais do que aqueles que vemos na rua e muito menos aos que temos em casa mas ainda assim fazem parte da clientela. Quando o dono vem sem o cão nós perguntamos logo, "então o x hoje não veio dar a sua voltinha?", os clientes gostam e nós sentimos um real carinho também por estas alminhas de quatro patas.

Há dias a dona do Max foi à loja, pudera, a casa dela é no prédio onde está encorporada a loja, é só descer o elevador como ela tanta vez diz e já lá está e perguntei-lhe pelo cão que ela prende à porta do estabelecimento e que ali fica à espera dela, muito calmo, não rosna a ninguém, deixa-se ser afagado por todos e não é dos cães mais festivos do mundo quando vê a dona, simplesmente levanta-se quando assim incentivado pela trela e lá faz o seu caminho. O Max ia ser operado, tinha 6 anos, era preto e era um doce. O Max não resistiu e faleceu. 

Hoje quando soube da noticia senti uma tristeza verdadeira, era rotina ver aquele amor de cão ali sentado ou quando apanhava a dona na rua com ele e ainda mais triste me senti quando a dona apareceu na loja para comprar algo e vinha com lágrimas nos olhos. Não soube o que dizer, ela só olhou para mim e eu percebi. É uma cliente que já me trata pelo nome e hoje quando lhe dei algumas palavras de alento ela aceitou-as de bom grado e percebeu que eu estava a sentir um bocadinho da sua dor.

A formação não nos prepara para isto, não nos diz como não nos afeiçoarmos aos clientes e aos seus amigos animais. Não nos ensina a olhar para o cliente como apenas um fim para atingir o plim plim e nós vamo-nos importando com aqueles que lá passam todos os dias, conhecendo um bocadinho da sua vida e quando estas coisas acontecem acabamos por sofrer também um pouquinho.

O Max era um lindo cão mas isso eu já disse não já? Descansa em paz cãozinho, todos nós na loja vamos sentir a tua falta. 

O inconveniente de não saber o que dizer.

Dezembro 02, 2016

Filippa

Eu costumo dizer que ser funcionária de um supermercado ainda para mais quando tens de ficar na caixa é uma aventura. Tu finges que não ouves certas coisas, deixas alguns clientes pensarem que és uma lerda qualquer que não percebeu o que ele disse só para no fim teres percebido tudo e preferido ignorar para não responder, conheces as velhotas que por lá passam só para comprar o seu pão, os sem abrigo que gastam os poucos euros que têm em coisas básicas, os engravatadinhos que são muito simpáticos para ti ou por outro lado te olham sobranceiramente, as empregadas domésticas que levam 20€ para pagar compras de 3€, os/as senhoras/senhores do escritório que aproveitam o tempo livre para ir lá comprar uma coisa rápida para o lanche, as pessoas que não chegas a atender mais do que uma vez porque só estavam ali de passagem, os universitários que vão comprar mantimentos para uma noite em claro e todas outras personagens que só conheces mesmo quando o teu trabalho passa pelo atendimento ao público. 

Tudo isto se atende bem, tu sabes pela forma como a pessoa te responda se é simpática, se está com pressa ou poderia ficar ali a tarde toda e só pelo tom de voz tu recebes as ferramentas necessárias para a despachares da melhor maneira possivel. Nada disto acontece quando me aparece pela frente a pior situação de todas: o cliente está ao telefone. Não sei como falar, há coisas que tenho de perguntar tais como se tem cartão, se deseja saco ou contribuinte na fatura. Óbvio que quando falo as pessoas ignoram-me, quando não falo a pessoa lá vê que está a empatar a fila, desliga o telefone e lá vem o 'oh menina quero um saco e contribuinte na fatura'. Eu inspiro profundamente, largo o meu melhor sorriso como se a conversa telefónica da pessoa não tivesse empatado todo o meu serviço e lá dou o saco e peço o número de contribuinte. 

O problema é: como é que devemos agir? Passar apenas os artigos e dizer o valor ou fingir que a pessoa não está ao telefone e conversar como se nada fosse? Confesso que às vezes sinto que estou a ser mal educada porque estou a interromper a conversa da pessoa mas porra só estou a tentar fazer o meu trabalho! Isto é um problema de consciência sério, peço a todos que da próxima vez que foram fazer compras tenham isso em atenção, não falem ao telefone na hora de pagar, estão a constranger a colaboradora que não vai saber como agir com medo ou de ser ignorada ou de levar com resposta rispida quando já passou a conta para a fase de pagar e ver o cliente pelas costas. 

Proposta de lei escrita e desenvolvida apenas por mim mas que aposto que daria jeito a muito trabalhador por esse Portugal fora: Proibido todo e qualquer ato de comunicação móvel aquando do momento de pagar as suas compras numa caixa. 

As operadoras de caixa deste país agradecem. 

 

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