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De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

A formação não nos prepara para isto.

Dezembro 09, 2016

Filippa

Adoro trabalhar com o público. É tão dinâmico, por muito que o meu trabalho consista sempre no mesmo todos os dias são diferentes porque há sempre algo que acontece que não aconteceu no dia anterior e muito provavelmente não vai acontecer no dia a seguir.

Já aconteceu a dez minutos da loja fechar aparecer um homem perdido de amores pelo álcool que deixou cair uma grade inteira de cervejas, muitas vezes o camião da mercadoria aparece quando o dia já virou noite e nós só queremos ir para casa ou então a sempre famosa "caça ao ladrão" em que nuns dias são os mais bem vistos que entram na loja e noutros são logo apanhados mal metem o pé dentro da loja.

Há muitos clientes que lá vão todos os dias, sendo um supermercado de rua, deixam o seu cãozinho à porta e vão fazer as compras rápidas para não o deixar muito tempo à espera. 'Dá aí um olhinho por ele?' 'Dou sim, vá lá comprar as suas coisas', "Posso entrar com ele? Vou só comprar pão.", "a entrada não é permitida a animais, deixe-se estar que eu vou buscar, qual é o pão que quer?". 
Assim como vamos conhecendo os donos também conhecemos os bichos e afeiçoamo-nos a eles um bocado mais do que aqueles que vemos na rua e muito menos aos que temos em casa mas ainda assim fazem parte da clientela. Quando o dono vem sem o cão nós perguntamos logo, "então o x hoje não veio dar a sua voltinha?", os clientes gostam e nós sentimos um real carinho também por estas alminhas de quatro patas.

Há dias a dona do Max foi à loja, pudera, a casa dela é no prédio onde está encorporada a loja, é só descer o elevador como ela tanta vez diz e já lá está e perguntei-lhe pelo cão que ela prende à porta do estabelecimento e que ali fica à espera dela, muito calmo, não rosna a ninguém, deixa-se ser afagado por todos e não é dos cães mais festivos do mundo quando vê a dona, simplesmente levanta-se quando assim incentivado pela trela e lá faz o seu caminho. O Max ia ser operado, tinha 6 anos, era preto e era um doce. O Max não resistiu e faleceu. 

Hoje quando soube da noticia senti uma tristeza verdadeira, era rotina ver aquele amor de cão ali sentado ou quando apanhava a dona na rua com ele e ainda mais triste me senti quando a dona apareceu na loja para comprar algo e vinha com lágrimas nos olhos. Não soube o que dizer, ela só olhou para mim e eu percebi. É uma cliente que já me trata pelo nome e hoje quando lhe dei algumas palavras de alento ela aceitou-as de bom grado e percebeu que eu estava a sentir um bocadinho da sua dor.

A formação não nos prepara para isto, não nos diz como não nos afeiçoarmos aos clientes e aos seus amigos animais. Não nos ensina a olhar para o cliente como apenas um fim para atingir o plim plim e nós vamo-nos importando com aqueles que lá passam todos os dias, conhecendo um bocadinho da sua vida e quando estas coisas acontecem acabamos por sofrer também um pouquinho.

O Max era um lindo cão mas isso eu já disse não já? Descansa em paz cãozinho, todos nós na loja vamos sentir a tua falta. 

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