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De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

De Ténis e Livro na Mão

Façam o favor de ser felizes!

[Road to Portugal 2018]: #Quote

Maio 27, 2017

Filippa

“Esta ideia lançava o conselheiro em um daqueles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a notícia do resultado dela.

Devora-nos uma impaciência insuportável; tudo o que ouvimos nos aflige; as conversas sobre sobre assuntos indiferentes irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra elas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repelimos com energia a ideia dele. O silêncio não nos é mais agradável; as apreensões ganham corpo no meio dele; falam os pressentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos lábios. A inquietação é-nos tão intolerável, como o movimento. Ansiamos sair da incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vai mais longe o efeito moral deste estado de espírito; chegamos quase a querer mal a todos quantos estão assistindo naquele momento à decisão lenta da sorte. O nosso egoísmo, exacerbado em tais momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir aquilo; e contudo não lhes perdoaríamos se se retirassem. Sensações daquelas esgotam mais vitalidade, em cada instante, do que anos de vida isenta delas.”

 

Este excerto foi tirado do livro "A Morgadinha dos Canaviais" de Júlio Dinis e digam lá que não retrata quase na perfeição os portugueses na hora da votação da eurovisão em 13 de maio passado? 

[Road To Portugal 2018]: Uma semana depois.

Maio 25, 2017

Filippa

25 de maio de 2017. Juro que ainda hoje parece mentira. Aquilo aconteceu mesmo? A votação foi mesmo assim tão grande? O Salvador ganhou mesmo? Portugal saiu mesmo da cepa torta no que diz respeito à eurovisão? 

Juro que desde o dia 13 de maio que ando nas nuvens, os dois dias que se seguiram à vitória consumi tudo o que foram notícias na internet, aberturas de noticiários, comprei revistas em que o Salvador fez capa (calma aí revistas cor-de-rosa, lamento mas a vida amorosa do vencedor da eurovisão não me interessa), não arredei pé do grupo no facebook onde sigo as noticias da eurovisão, vi e revi a atuação do Salvador e também as votações, foi um consumo extremo de eurovisão. Fiquei maravilhada com os comentários de pessoas de outros países que falavam bem, chateada quando escreviam que era o pior vencedor de sempre. Como assim o pior vencedor de sempre? Vencemos a votação do júri e o televoto e ainda têm a lata de dizer que somos o pior vencedor de sempre? Somos é o melhor vencedor de toda a história, isso sim! 

Tem sido uma semana fantástica, arrisco-me a dizer que o efeito da vitória na eurovisão e toda a felicidade que em mim provocou vai-se prolongar por muitos meses, provavelmente até maio de 2018. 

Como já escrevi noutros posts, eu trabalho diretamente com o público. Sendo operadora de caixa num supermercado é fácil sentir o pulso às pessoas e nestas alturas é sempre muito engraçado ver como as pessoas reagem. Quando Portugal venceu o europeu de futebol para além do dinheiro a mais que fizemos em bebidas e aperitivos notava-se que as pessoas estavam diferentes, apressadas porque queriam ir ver o jogo, confiantes porque Portugal tinha a oportunidade de vencer e havia algo mais, Portugal não é um país habituado a vencer, como tal os portugueses não são pessoas que já estejam enjoadas de êxitos e quando chegam estas alturas acho que as próprias pessoas não sabem como reagir, ou estão confiantes demais ou pessimistas até à cova. 

No dia a seguir à vitória do Salvador não fui trabalhar mas na segunda quando voltei não se falava de outra coisa, os adultos nem falavam muito, os adolescentes muito menos mas a "terceira idade" não se calava com a eurovisão. É bom lembrar que foram os nossos avós que inauguraram o festival da canção, se há pessoas que conhecem o calvário de Portugal no certame são eles e por isso acaba por ser normal que sejam os que estejam mais felizes com este triunfo.

"Oh menina viu a nossa vitória?", "Ah eu quando ouvi a música disse logo que íamos ganhar", "A nossa canção era a mais bonita de todas", "Venceu pela simplicidade, os irmãos fizeram um milagre". Foi bonito de ouvir e ver os sorrisos nas caras, eu como fã incondicional da eurovisão quando alguém tocava no assunto só me apetecia era ficar horas e horas a debater mas rapidamente voltava à realidade de que estava no meu local de trabalho e que tinha era de fazer a fila andar. 

Continuo de coração cheio e ao contrário do presidente da República não fico preocupada por os portugueses agora acharem que vão ganhar tudo, meus amigos nós só não conseguimos o que não queremos. Somos incriveis 

[Road To Lisbon 2018]: De coração cheio!

Maio 14, 2017

Filippa

Não há ninguém neste mundo que não seja um bocadinho sonhador. Há vários tipos de sonhos, aqueles facilmente realizáveis que basta apenas um pouco de trabalho e conseguimos, há aqueles que temos de trabalhar mesmo muito e que no fim dão um enorme gozo por ter sido tão dificil e depois há aqueles que são praticamente irrealizáveis. Sim não sou apologista que mesmo com todo o sacrificio e trabalho todos os sonhos se realizam, sejamos honestos, há coisas que são completamente impossiveis de acontecer. 

Eu tenho alguns sonhos e todos se encaixam em alguma das categorias que citei. Em 2008 comecei a seguir a eurovisão, não me lembro como nem porquê, simplesmente aconteceu e foi logo no ano da nossa melhor participação em praticamente 10 anos. Vânia Fernandes levou "Senhora do Mar" a Belgrado e conseguiu um honroso 13º lugar (honroso porque estamos a falar de Portugal) mas houve momentos em que se sonhou com um Lisboa 2009. Os anos foram passando, pelo palco da eurovisão passou Flor-de-Lis, Homens da Luta, Filipa Azevedo, Filipa Sousa, Suzy, Leonor Andrade e nenhum deles conseguiu sequer arranhar o top 10 da final. Já estava mais que convencida que se não tinha sido com a Vânia Fernandes então nunca mais na vida íamos ganhar, a RTP também não parecia propriamente interessada em trazer o certame para Portugal, os Festivais da Canção eram horríveis, as coisas pareciam ser feitas todas só por fazer e uma pessoa quando vê assim o caso tão mal parado começa a desanimar e a achar que não vai ser nesta vida que a coisa se vai dar. 

Sou muito crítica da nossa estação pública em relação à eurovisão porque sempre achei (e continuo a achar) que era possivel fazer sempre mais com menos. Vamos ser claros em relação a isto, a nossa indústria musical (se é que se pode dar este nome) não é propriamente o ramo mais forte do país, só há bem pouco tempo é que as rádios mais ouvidas começaram a passar artistas portugueses e portanto quando não tens uma indústria sólida que te possa suportar também é dificil fazer as coisas acontecerem. A Suécia que é neste momento o país sempre a temer na competição tem uma indústria fortissima, eles têm compositores a escrever letras para os quatro cantos do mundo, a própria escolha para o certame é todo um espetáculo, nada que se compare a nível europeu. Mesmo assim acho que a RTP podia fazer mais, só para dar um exemplo a nossa estação pública produz o "The Voice" de onde saem vencedores com vozes incriveis, não acredito que seja dificil encontrar bons compositores e enviarem músicas fortes para representar a nação. 

O tempo foi passando e eu comecei a achar que ver Portugal vencedor da eurovisão seria daqueles sonhos impossiveis de acontecer, já tinha colocado isso bem lá fundo da minha alma, foi um género de "aceita que dói menos" e acabei mesmo por me resignar. Continuei a acompanhar o festival porque amo de coração tudo o que envolve, desde as finais nacionais de todos os países, a revelação da cidade anfitriã, os tops feitos pelos fãs e publicados no youtube, tudo isso é eurovisão e faz-me adorar cada vez mais isto. 

Ontem quando o veredicto chegou e Portugal foi coroado o grande vencedor a minha reação foi chorar, chorar e chorar ao ponto de soluçar e deixar a minha mãe preocupada. Sabem quando acontece algo que vocês querem muito e quando se torna real só se lembram de vocês quando começaram a sonhar com isso? Só me consegui lembrar da menininha que em 2008 começou a encantar-se com isto, da jovem que sofre a bom sofrer anos após ano e que parece que é sempre em vão. Só me apeteceu poder abraçá-la e dizer "Vês como também conseguimos?"

A vitória do Salvador Sobral é monstruosa e eu acho que o próprio não tem noção disso. Agora todas as televisões falam da cultura portuguesa e da importância desta vitória, algo que não é novo para mim. Ao longo dos anos tenho dito que uma vitória portuguesa seria um enorme boost para a economia e turismo. Portugal está na moda e com mais este sucesso a garantia é que vai continuar a estar, nós temos uma capacidade de organização fantástica e por isso não tenho dúvidas que o ESC 2018 será memorável. 

A nossa conquista vem também num momento importante para a nossa música, parece-me claro que estamos a assistir dentro do nosso país a um virar de página, como disse lá bem em cima as rádios começaram a dar mais atenção à música portuguesa, já não é assim tão raro ouvir um artista português passar na rfm ou na rádio comercial. A vitória de ontem vem dar ainda mais força a este movimento e eu acho muito curioso que tenha sido precisamente este cantor a dá-la. Salvador é muito peculiar, ele é ridicularmente honesto, brutalmente talentoso e isso faz com que seja um estranho e quer queiram quer não a sociedade portuguesa ainda estranha as pessoas que pensam e são fora da caixa. Eu lembro-me bem do que se disse quando ele venceu o Festival da Canção, chamaram-lhe de tudo e mais alguma coisa e essas mesmas pessoas de certeza que foram os primeiros a aplaudi-lo, isto é o típico português. 

Foi uma chapada de luva branca para todos nós, já viram o que somos capazes de fazer quando pomos na cabeça que somos bons? Ontem eu amei por duas, por mim e pelo eu que começou esta jornada. Foi um momento incrivel, eu que sou benfiquista ferrenha, tinha acabado de chegar do estádio e dos festejos do tetra, as primeiras lágrimas e consequente choradeira que soltei nesse dia foi com esta vitória. Não há palavras para isto, estou verdadeiramente de coração cheio e meu Deus...... Somos os vencedores da Eurovisão 2017! 

 

Um património do tamanho do mundo.

Abril 19, 2017

Filippa

 Vergonhosamente aqui admito pela centésima vez que há muito tempo não lia autores portugueses. Deixei-me andar pela má vida e negligenciei este gosto que tanto prezo. Depois da aventura de ler a biografia do Hitler decidi voltar a um campo tão nosso, a literatura portuguesa. Estou decidida a acabar os livros que tenho na estante ainda por deitar a vista, são cinco e apenas um era português por isso comecei por aí. 

"A Morgadinha dos Canaviais" é o que estou a ler atualmente e só queria saber expressar por palavras a sensação que foi voltar a casa. Acho que até hoje nunca me tinha apercebido do privilégio e prazer que é ler em português. Passei demasiado tempo por autores estrangeiros e por obras traduzidas e por muito boa que seja a tradução (o que vamos admitir que muitas vezes não é) há sempre algo que se perde no meio da passagem de idioma x para português.

Conhecemos as palavras, choramos com o desfecho, não dormimos com o enredo mas há algo muito pessoal que se deixa pelo caminho quando a língua original é deixada para trás. No nosso português por exemplo costumam dizer que saudade é uma palavra que não tem tradução para mais nenhuma lingua, são sete letras que formam algo com uma sonoridade completamente "tuga". É certissimo dizer isto, o mesmo se passa com as traduções dos livros, pode ser tudo muito bem traduzido, até mesmo aquelas expressões carateristicas de certo povo mas há sempre algo que se perde, é como se no ínicio o livro tivesse sido entregue com 100% de alma e paixão e quando chega a nós leitores resta apenas uma pequena percentagem.

Ler em português é receber a alma de um autor no seu estado mais puro, não há barreira da lingua, quanto muito há palavras que não percebemos mas isso deve-se mais a nós do que propriamente ao livro. Ler em português é ler aceleradamente como se a cada parágrafo a excitação aumentasse, é dar jeito à fala das personagens, interpretar em voz alta na nossa cabeça exatamente  como se a cena se passasse mesmo à nossa frente. 

Sinto-me diferente por ter voltado à base, ler autores portugueses deixa-me muito feliz e foi preciso ficar tanto tempo afastada para perceber a falta que me fazia. Afinal toda esta aventura começou bem lá longe com "Uma Aventura no Palácio da Pena" e no conforto que me deu saber as pedras da calçada que as personagens pisaram e o monumento  que serviu de paisagem à história. 

Sabem aquele conforto bom que sentimos quando está a chover e nós estamos em casa bem tapadinhos e quentinhos? Cheguei à conclusão que ler em português é o meu cobertor quentinho em dias chuvosos, é a minha proteção e o meu conforto, aquele que nos faz aquecer a alma e no fim nos diz "vês como somos capazes de escrever coisas belas?" 

Temos muito património, o nosso país é uma arte conjunta de natureza com monumentos e gentes incriveis mas muitas vezes esquecem-se de referir esta jóia que é a nossa literatura. Seríamos dos países mais ricos do mundo se a riqueza se medisse pela qualidade da literatura. Que bom é descobrir como a leitura ainda me proporciona momentos e sensações tão boas 

 

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Seremos todos terroristas?

Janeiro 27, 2017

Filippa

Tem estado um frio desgraçado, sou de Lisboa e estas temperaturas de 4ºC têm sido o descalabro para mim. Adoro o inverno mas é quando estou com a minha camisola quentinha que tem um robe polar por cima, ah e claro, tapada com o belo do meu cobertor. É bom este conforto todo não é? Ouvimos falar dos sem abrigo que em plena Lisboa passam um frio de morte, e nós sentimos pena, é instintivo mas sentimos a nossa pena dentro do nosso lar com os nossos aquecedores a manter a temperatura habitável dentro de casa. 

Ligamos a tv, está quase a começar o telejornal e como somos todos pessoas com uma vida, tiramos aquele momento para nos manter atualizados sobre o que passa no mundo e lá estão as noticias. Os refugiados estão a morrer de hipotermia na Grécia, em pleno inverno, em plena europa, esse continente moderno e avançado. Coitadinhos, passaram por tanto, fugiram do seu país à procura de uma vida melhor e lá estão aquelas almas a morrer ao frio, não há ninguém que faça nada? Parece impossivel que esses gigantes europeu assobiem para o lado dizemos nós enquanto metemos mais lenha na fogueira ou aumentamos um pouco a intensidade do aquecedor no já quentinho lar. 

Isto faz-me pensar, seremos todos terroristas? Há aqueles terroristas que nos aterrorizam, meu Deus, um ataque em França aqui tão perto, depois seguiu-se Bélgica e na Siria ataques são o pão nosso de cada dia. Acreditam se disser que tenho medo de andar de metro? Ando todos os dias, é a maneira mais fácil e rápida de chegar ao trabalho mas passou a ser algo na minha rotina que me aterroriza. No outro dia o metro fez uma travagem brusca dentro do túnel e ficou ali parado dois minutos e foi quando eu entrei em pânico que percebi que estava a ganhar medo. Fiquei verdadeiramente assustada, olhei para todo o lado com medo que tivesse acontecido o que já aconteceu noutras cidades europeias. Também já aconteceu as luzes apagarem-se todas e eu só me lembrar de pensar 'por favor não por favor não'. São coisas que acontecem principalmente no metro de Lisboa que cada vez está mais degradado mas devido à maneira como se pôs o mundo, tenho medo. Tenho medo quando as carruagens estão a andar rápido, chego ao cúmulo de estar a atravessar a zona da linha vermelha em S. Sebastião e quando vejo o metro a chegar 'será que algum dia nos vai calhar a nós?'. 

O mundo foi tomado pelo medo, uns fogem do terror e outros temem que ele tenha chegado. Eu ganhei medo mas recuso-me a mudar a minha vida por isso, talvez por teimosia ou comodismo, ando todos os dias de metro e andarei (pelo menos enquanto aquelas carruagens não se desmontarem todas). 

Seremos todos terroristas? É que vamos ser honestos, enquanto eu escrevo e alguém lê este texto no quentinho da sua casa, alguém está a morrer de frio em campos de refugiados ou noutra parte do mundo um sujeito rebenta ou desencadeia um tiroteio em nome de uma crença. 

O que nos vai acontecer daqui para a frente? Nos Estados Unidos da América tem-se um presidente que fala em registar os muçulmanos e na minha opinião é uma ideia gravissima. Já argumentaram comigo a dizer que será mais fácil identificar os terroristas. Brincamos? Andamos a brincar com isto? A sério que estamos a dizer que os terroristas são apenas os muçulmanos? Nós somos o quê? Quando permitimos que pessoas de carne e osso como nós morram de frio em pleno século XXI na nossa tão estimada Europa somos o quê? Uns bondosos? Isto é simplesmente inacreditável e não sei mesmo para onde caminhamos. Pensar que as coisas podem caminhar a passos largos para situações bem mais graves faz-me ter pena de nós, somos uns miseráveis que não sabem viver conforme as crenças e hábitos dos outros, fomos abençoados com a capacidade de pensar, de sermos inteligentes mas cada vez se prova mais que foi um erro tremendo.

Isto é apenas um desabafo, decidi que em 2017 queria encher a minha vida com mais solidariedade e compaixão, não faz sentido andar nesta vida e ser sempre 'eu eu eu e depois os outros' e ando a pensar nisto a algum tempo, há tanta coisa que podemos fazer se assim quisermos. De mim para mim, acho que está na altura de deixar-me de pensamentos e passar a acções, mesmo ajudando ou doando um bocadinho, o meu bocadinho pode ser tanto para outras pessoas.

Vamos fazer de 2017 o ano de voltarmos a ser humanos?  

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